
Hoje eu estou retirando o pó deste blog. Um projeto que começou em 2019/2020 e foi completamente abandonado. No próximo parágrafo vou atualizar você do que aconteceu por aqui neste meio tempo. Para os imediatistas, pulem para o terceiro bloco de palavras.
Depois de 8 de setembro de 2020, eu comecei a trabalhar com automobilismo. Fui social media de sites, roteirista de podcasts, me aventurei brevemente na área do mercado de automóveis e, por fim, virei estagiária de um site especializado em esportes a motor. Conheci alguns autódromos do Brasil e tive a oportunidade de conhecer o famoso paddock da Fórmula 1. A Ana que escreve hoje é a mesma de 2020, mas com muito mais bagagem. Agora, chega de enrolação e vamos ao texto:
Com os fatos que aconteceram esse ano, a história do Titanic voltou à tona. O imponente navio britânico que partiu rumo aos Estados Unidos. Ousado, luxuoso… e que colidiu com um iceberg, naufragando nas proximidades do Canadá.
Agora, vamos à minha parte favorita, os paralelos! O Titanic? É a Fórmula 1. DNA britânico, ambiciosa. O iceberg? A ponta dele é composta pelos GPs de Miami e Las Vegas. Essa é a parte visível. Escondidos embaixo da “água” estão alguns fatores que a Fórmula 1 não parece ver. Ou, pelo menos, não quer ver.
Vou partir de uma observação aparentemente inútil: os estadunidenses não sabem se autodenominar. Sim, eu estou falando sério. Eles tratam seu próprio país como se fosse um continente. A “América” para eles… são apenas eles. E isso não é uma crítica. Novamente, é uma observação.
Parece inútil, não é? Mas essa é apenas uma das características de um povo extremamente nacionalista. O famoso 4 de julho, dia em que é comemorada a Independência dos Estados Unidos, é uma arma poderosa para “esquecer” que a origem daquele povo é europeia em sua maioria.
Isso vai além de um feriado ou de um gentílico. E, claro, está fortemente presente nos esportes. Tanto que o “football”, principal esporte europeu, ganhou uma versão nova, onde os pés não são estrelas e até a bola não é redonda. Se quiser jogar futebol lá, não esqueça de avisar que é “soccer”.
O basquete é um símbolo forte e único dos EUA, assim como a Nascar. A Indy, que recebe competidores europeus e tem características da Fórmula 1, também se enquadra nesse quadro nacionalista. É só assistir ao cerimonial de abertura das etapas e, principalmente, das 500 Milhas de Indianápolis.
Só por esses fatores históricos e sociais, já deu para perceber que a Fórmula 1 encontrou uma resistência enorme por lá. A solução encontrada pela tal Liberty Media foi um reality show. E, vamos ser sinceros, decisão MUITO acertada e que funcionou dentro e fora dos EUA, atraindo um público mundial que renovou a categoria. Mas, o comandante do navio foi muito ambicioso em acreditar que só isso bastaria.
Da noite para o dia, a F1 começou a dar atenção total aos GPs de Miami e Las Vegas. O primeiro, que até deu certo, ainda é um estranho no calendário e as corridas parecem mais uma oportunidade para o público fazer festas luxuosas no paddock. Já o segundo, que ainda vai acontecer, é uma piada completa.
Os preços dos ingressos estão altíssimos e, por esses dias, o site GPBlog chegou a veicular uma nota da imprensa estadunidense sobre o assunto. E, ao que parece, ninguém entende como essa corrida de carros europeus foi parar na cidade dos cassinos.
Os pilotos, raras exceções, são desconhecidos. Não são polêmicos o suficiente. Não são americanos o suficiente (alô, Logan Sargeant). Las Vegas não é como os Emirados Árabes. Eles não precisam limpar a imagem do país, não precisam do dinheiro da F1 – nem querem pagar valores exorbitantes por ela – e não faz sentido todo esse alvoroço para algo que não possui ligação com o país deles (desculpem, Phil Hill e Mario Andretti, mas é a verdade).
A intenção deste texto não é ser contra as corridas nos Estados Unidos, mas refletir até onde todo esse olhar estadunidense pode interferir na categoria. E sim, essa situação é tão complicada quanto o excesso de corridas em países árabes.
Eu, sinceramente, não sei até onde a Liberty Media quer chegar com todo esse investimento nas terras do Tio Sam, mas está claro que vender, através da Netflix, uma competição que não existe não é a receita para agradar o público por lá.
Afinal, a Fórmula 1 é um esporte sério ou um espaço reservado para a alta sociedade estadunidense brincar de assistir corrida? Quem é o culpado pelo naufrágio do Titanic? O iceberg ou o comandante teimoso que ignorou os avisos recebidos?
São perguntas que só poderão ser respondidas daqui um tempo. Até lá, a Liberty Media pode tentar uma estratégia diferente para não afundar. Mas, por enquanto, o navio continua na direção de seu mais conhecido algoz.