Senna: o passado que perturba o presente

Enquanto escrevo esse texto meu pensamento é: seria ele direcionado a um público específico? Como abordar esse assunto sem causar feridas em um público que cresceu com a imagem de um ídolo? E as respostas são simples: eu apenas serei eu mesma. Afinal, do que adianta reprimir minhas opiniões e não mostrar um ponto de vista diferente para as pessoas?

O que quero discutir hoje é sim sobre Ayrton Senna, mas não se engane: eu não vou julgar se ele foi um herói ou vilão, se ele é o melhor de todos ou algo do tipo. Não farei comparações. Mas sim falarei de um assunto que pouco vejo ser tratado na mídia esportiva (pelo menos não do lado negativo da coisa). Esse texto é sobre um grande amigo, mas também meu pior inimigo. Esse texto é sobre o tal do saudosismo.

Uma rápida definição: segundo o dicionário, saudosismo é a admiração excessiva por aspectos do passado.

Pronto, agora que você já sabe do que estou falando, quero que você pare e reflita: quantas vezes você já escutou ou disse uma frase que começava exatamente assim: “Na época do Senna…”. E qual o problema disso? A princípio, nenhum. Porém, depois de conviver algum tempo na comunidade de fãs do esporte, eu comecei a ver diversos problemas nessa frase.

Senna foi um grande piloto. Isso é fato. Mas a Fórmula 1 não morreu com ele. Ele não é o único grande piloto brasileiro que tivemos. Eu sempre vejo pessoas tratando Ayrton como uma espécie de deus intocável, um ser mitológico; e vejo essas mesmas pessoas simplesmente esquecendo que já tivemos Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e mais 12 pilotos que vieram antes de Ayrton e não conquistaram títulos, mas contribuíram para a história do esporte. Um deles até dá nome ao autódromo de Interlagos, José Carlos Pace.

Os pilotos pré-Senna parecem estar esquecidos dentro de um baú empoeirado na mente dos brasileiros. Lembrados apenas quando alguém resolve dar uma espiada dentro do baú.

Mas Ana, todo mundo fala de Felipe Massa, por exemplo. Não é por que ele está mais próximo da nossa realidade? Sim. E eu fico feliz de ver as pessoas relembrando momentos da carreira de Massa e Barrichello, todavia esses pilotos sofrem/sofreram uma situação diferente. A era pós-Senna. A era em que os órfãos, desesperados, clamam para declarar um novo Ayrton Senna. É algo que eu particularmente não consigo entender. Nenhum piloto com início de carreira depois de 1994 pode ser ele mesmo. Ele obrigatoriamente tem que ser o “novo Senna” na mente dos brasileiros.

A mídia estabelece isso. Você que viu Senna correr estabelece isso. E isso não é justo, muito menos real. Atualmente, exitem ao menos 5 brasileiros nas categorias de base da Fórmula 1 e todos podem e devem ter inspiração no Rei da Chuva. Mas nenhum pode ser ele. E essa é a minha maior luta em relação ao saudosismo. Precisamos quebrar essa idealização de que haverá outro Ayrton. Não haverá. Nunca. Igor Fraga será Igor Fraga; Caio Collet será Caio Collet; Felipe Massa é Felipe Massa.

Você pode achar que o saudosismo é um conceito inocente, mas na realidade ele prejudica (e muito) a carreira de nossos pilotos brasileiros. Quando um brasileiro entra no grid, ele sabe que está levando nas costas um país que exige que ele tenha as mesmas habilidades de um piloto “lendário”. E se ele, por acaso, tem uma temporada ruim, já está automaticamente descartado da mente dos brasileiros. É cruel. Felipe Massa talvez seja um dos últimos que não tenha enfrentado tanto essa maré saudosista. Mas te garanto que os que vieram depois dele enfrentam.

Enquanto a mídia brasileira não encontra sua nova cópia de Ayrton em solo verde e amarelo, eles procuram nos estrangeiros. Citarei apenas dois exemplos, que me causam nervoso: Max Verstappen carregou a alcunha de “Novo Ayrton Senna” quando fez uma corrida espetacular embaixo de chuva no Grande Prêmio do Brasil 2016; e em 2019 foi a vez de Charles Leclerc ter “o olhar de Ayrton Senna” no pódio de Monza, de acordo com um tal de Galvão Bueno.

Essas duas comparações até me levaram a fazer algumas piadas entre amigos sobre Ayrton toda hora ser alguém diferente no século 21. É realmente perturbador como a imprensa quer que você tome a sua pílula dominical de Ayrton Senna, mesmo 25 anos depois de sua morte.

O saudosismo tem que existir, afinal é a nossa história sendo contada. Mas ele não deve e não pode atrapalhar o presente. A época de Senna não foi melhor do que qualquer outra época. São pessoas diferentes, mentes diferentes, carros diferentes. Pare de diminuir o momento que os fãs atuais do automobilismo vivem para alimentar uma perfeição irreal, que existe somente para alimentar um público que não consegue se desligar do passado.

Ayrton Senna é único. Não haverá outro. Deixe a nova geração entrar, sem uma lista de requisitos “sennáticos”. Para mim, deixar o saudosismo no passado é respeitar a imagem do nosso maior campeão. Respeitar a história dele. E respeitar o lindo futuro que o Brasil pode ter no esporte. Dá sim para contar sobre Ayrton Senna sem desrespeitar o nosso presente, o nosso futuro e o passado lindo que outros pilotos construíram.

6 comentários em “Senna: o passado que perturba o presente

  1. Ótimo texto. Talvez a melhor reflexão sobre o assunto seja em relação ao papel de ídolo que Senna representou na época como o bom rapaz patriota de sucesso mundial num momento de fim do regime militar onde o país estava no fundo do poço.
    Era preciso que houvesse hum herói nacional. Isso ficou nos corações e mentes de gente que gostava de ver as cores verde e amarelo na F1 mas que nunca gostou ou entendeu a categoria e a abandonou depois de maio de noventa e quatro.

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  2. Ana, não conhecia o seu blog e achei muito bom. Eu sou dos “velhos” que assistiram Ímola 94 ao vivo e conheço gente demais que se encaixa no que você falou.
    Parabéns pelo belo texto.

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